Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

A Ascensão e Queda de Cavaco Silva e a Crise Política Anunciada

 

Achei épica a forma como Cavaco Silva se dirigiu ao País para anunciar a sua mais que esperada recandidatura à Presidência da República. Já tenho ouvido variadíssimos discursos marcantes, quer da actualidade, quer dos considerados históricos, mas nunca tinha assistido a uma cena tão caricata de auto-proclamação em frente do já afamado conjunto de bandeiras nacionais, que vão constituindo a imagem de marca do Professor.

 

Ora bem, daquilo que consegui entender do jorrar de elogios do próprio orador à sua pessoa, a mensagem final foi “votem em mim porque eu sou o maior, o mais impoluto e o que tem maior perfil para ser o Presidente da República”. Enfim, não nos surpreendeu grande coisa dado que os portugueses conhecem bem a personalidade do senhor, lembram-se daquela fantástica frase absolutamente inolvidável “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, que o colocou no posto mais alto da elite dos intelectuais iluminados da política portuguesa.

 

Pois bem mas se Sua Excelência Professor Cavaco Silva não tem dúvidas, eu, comum mortal, tenho e não são poucas, o que para mim não é um defeito mas sim uma virtude pois para além de errar e duvidar ser humano, representa em democracia a capacidade de emendar situações que corram menos bem ou francamente mal. Levantam-se dúvidas quando a resolução deste homem “tecnocrata” resume absolutamente tudo a números e a calculismo político.

 

Não preciso de referir todos os comentários com que o Professor Cavaco já nos brindou, mas já agora gostava de dar alguns exemplos sobre a forma como um “homem de estado” resolve os problemas da humanidade. Socorro-me neste ponto do brilhante artigo de Alfredo Barroso intitulado “Cavaco Silva: A Realidade e o Mito” publicado há dias no i, onde refere a sua celebérrima afirmação a propósito dos funcionários públicos portugueses “Como é que nos vemos livres deles? Reformá-los não resolve o problema, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e, portanto, diminui também a receita do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer.“ É verdade… Cavaco Silva afinal também tem os seus “tesourinhos deprimentes” que atestam bem a sua verdadeira personalidade.

 

Bem mas passado é passado e pode ser que o senhor agora já não queira esperar que o pessoal morra, pode ter sido só uma fase depressiva… podemos dar o benefício da dúvida(?)

 

Mas concentremo-nos apenas em Cavaco Presidente, isto é, o curriculum dos últimos cinco anos. É um exercício complicado de fazer quando a intenção do Presidente foi o low profile, mas penso que sou capaz de me lembrar de duas ou três coisas.

Dessas memórias, a primeira que me assalta de imediato é a declaração ao país em finais de Julho de 2008. Recordo-me como se fosse hoje, em plena silly season onde grande parte dos portugueses estavam de férias, incluindo os políticos, eis que surge a notícia de que o Presidente da República iria efectuar uma declaração ao país. A partir desse momento, começou o rodopio dos comentadores políticos a tentarem adivinhar o que é que viria dessa declaração, lembro-me de ler no IOL a seguinte frase “Segundo uma declaração de um assessor ao diário, só uma razão verdadeiramente importante levará Cavaco Silva a interromper as suas férias e a usar a televisão para falar ao país.”, apelidando essa comunicação de “inédita”. Recordo-me ainda que os dossiers mais polémicos que estavam em cima da mesa seriam a Lei do Divórcio ou o novo regime laboral da função pública, ligado à reforma da administração do estado.

 

Mas afinal não era nada disso, houve pouquíssimos a “adivinhar” o que realmente corporizava esta expectativa, que não era nada mais nada menos do que o veto do Presidente ao Estatuto dos Açores, misturado com um pseudo-puxão-de-orelhas sobre este estatuto. Relembro que o Sr. não falava aos portugueses num acto tão solene desde o ano novo e passado 7 meses a única coisa que encontrou de relevância no país para “passar cavaco” aos portugas foi este assunto? Na altura fiquei absolutamente atónito, sem entender porque é que um veto que segue os canais normais burocráticos havia de ser alvo de tanta pompa e circunstância. Ainda hoje não vejo qualquer motivo para televisionar esta formalidade, apenas encontro algum eco se relacionar este facto com as eleições que decorreram em Outubro desse mesmo ano nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, se assim foi, acho que não teve sentido de estado, colocando o lugar que assumia como PR ao serviço da destabilização gratuita das referidas eleições.

 

Uma outra memória incontornável foi certamente a tentativa de criação de um facto político inexistente que prejudicou seriamente as eleições legislativas: o caso das escutas em Belém… Penso que o PR deveria ter sido mais comedido nas declarações, que eu neste mesmo blogue tive oportunidade de comentar, primeiramente deixou no ar que existiriam “questões de segurança” que devem ser vistas logo após as eleições, mas depois (cerca de 48 horas) demite, sem uma única palavra perante os portugueses, o assessor de comunicação que alegadamente tentou interferir, esse sim, na linha editorial do jornal Público com um caso absolutamente ficcional e rocambolesco com uma história digna dos policiais de Agatha Christie. Já para não falar da tentativa escandalosa do PSD pegar no assunto para criar o watergate português. Este foi talvez o caso mais mesquinho e mal conduzido que a história portuguesa assistiu e que, no fim de contas, até acabou por cair em cima dos resultados eleitorais do PSD…

 

Sublinho ainda a hipocrisia latente num homem que já havia referido vezes sem conta a sua posição sobre o casamento entre pessoas do mesmmo sexo e finalmente quando tem a hipótese de  o vetar, de acordo com a sua ideologia e com os seus princípios, afinal não o faz colocando uma via verde ao referido casamento gay. Portanto desenganem-se aqueles que idealizam em Cavaco o poço de moralidade e de princípios, é que quando toca a tomar medidas que cheirem a antipopular, os princípios e a moralidade esvaziam-se e dão lugar ao pensamento imediato nos votos da esquerda que eventualmente perderia caso vetasse essa lei. Como disse William Shakespeare "Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são."


 

Para não me alongar mais, refiro apenas o recentíssimo caso da aprovação do Orçamento de Estado para 2011. Pois é, afinal de contas quem apareceu com um ar paternal a, aparentemente, resolver a questão foi o PR, colocando um dos seus homens de confiança – Eduardo Catroga – a fazer as vezes de interlocutor com o Governo, a abandonar a mesa de negociações motivando um oportuno conselho de estado e depois a apadrinhar um acordo, que em minha opinião, não credibilizou minimamente o Estado Português nem acalmou as agências de rating internacionais, visto que o PSD quase não tinha ainda saído da formalização do acordo e já estava de espada em riste a dar a entender que o Governo estava por dias. Sublinho também que o PSD não introduziu no OE nada de especial que não fossem medidas populistas, sem ventilar quaisquer soluções para a resolução efectiva da fase crítica que o país atravessa. Isso tem uma explicação, é que essas soluções não caiam bem numa altura de eleições dado que mexem com questões delicadas, plasmadas no Anteprojecto da Revisão Constitucional do PSD, que já foi apelidado por Santos Silva como um “manifesto extremista contra a Constituição" que revela "irresponsabilidade" e coloca "radicalmente em causa um equilíbrio de poderes que a democracia portuguesa laboriosamente construiu". No limite o que o PSD apresentou foi a negação do Estado Social e a privatização dos serviços públicos. Não se brinca assim com o país e com os portugueses que para além da gravíssima crise financeira, sofrem agora também os estilhaços de uma crise política anunciada.

 

Poderia dizer muitíssimo mais coisas sobre os silêncios confrangedores do PR e as verborreias descabidas que têm pautado a prestação da Presidência da República nos últimos cinco anos, contudo, não o faço porque penso já ter contribuído enquanto cidadão para clarificar a minha opinião sobre o actual PR. No entanto em democracia o povo é soberano e tem a liberdade de se expressar quer em debates políticos, quer em cafés, mas acima de tudo nas urnas e será no dia 23 de Janeiro que todos nós iremos optar…

publicado por Ricardo_Barros às 19:07
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Cavaco Silva: A reali...

Encontrei um texto muitíssimo bem escrito por Alfredo Barroso no joranal I. Porque vale a pena pensar nesta fase embrion...

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publicado por Ricardo_Barros às 17:38
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